Maioria das mortes no Ceará é de pessoas sem escolaridade

Inerente ao contexto brasileiro, a desigualdade redunda em carências
em setores relevantes da sociedade, como a saúde. No Ceará, dados da
plataforma Integra SUS – do Governo do Estado – revelam que quanto menor
o grau de escolaridade, maior é o índice de mortalidade. Em 2019, dos
48.749 óbitos registrados, de janeiro até meados de dezembro, 14.749
foram de pessoas sem qualquer formação estudantil, o equivalente a
30,25% do total. 
A segunda maior incidência foi entre pessoas que possuíam de um a
três anos de estudo. Ao todo, 11.923 (24,46%) morreram nesse período, de
acordo com o levantamento. Apenas 3,37% (1.643) das mortes registradas,
no entanto, atingiram indivíduos com 12 anos ou mais de escolaridade.
As doenças do aparelho circulatório – como o infarto e o Acidente
Vascular Cerebral (AVC) – lideraram o ranking das cinco principais
causas de mortalidade no Estado em 2019, com 12.711 óbitos. 
Na sequência, estão as neoplasias (7.980), doenças do aparelho
respiratório (6.250), as causas externas de mortalidade e morbidade, que
incluem acidentes de trânsito, homicídios e suicídios (5.247), seguidas
pelas doenças do aparelho digestivo (2.377), como as diarreias.
O cenário se mantém quando analisados os últimos quatro anos no
Ceará, ainda de acordo com o Integra SUS. Em 2016, o grupo que mais
morreu durante o período de 12 meses também foi o de pessoas com
escolaridade nula, o equivalente a 28,45% dos 55.478 óbitos
registrados. 
O levantamento mostra, também, que no recorte por raça/cor no Estado,
a população autodeclarada parda é a que mais morre. Neste ano, o número
de óbitos chegou a 33.438, seguido da branca, com 11.985, e da preta,
com 1.421 óbitos. 
Informação
Segundo explica a professora do Departamento de Saúde Comunitária da
Universidade Federal do Ceará (UFC), Magda de Almeida, quanto menor o
índice de escolaridade, menor o acesso à leitura e, por consequência, o
acesso à informação e o entendimento do que é importante para a
manutenção da saúde. 
“Informações que são superimportantes para o reconhecimento precoce
dos sintomas, por exemplo, dos sinais de gravidade, e isso dificulta
quando a pessoa não tem escolaridade. A pessoa acaba chegando a estágios
mais avançados da doença. Existe, ainda, a dificuldade de adesão ao
tratamento. A pessoa não entende e não consegue seguir as orientações
escritas, e o fato de não conseguir compreender alguns termos e
explicações, o que dificulta o diálogo”, afirma.
Nesse contexto, acrescenta a especialista, a formação dos
profissionais de saúde é fundamental para saber identificar essas
limitações. “Quando o profissional não é preparado para isso, muitas
vezes ele trata aquele adulto como alguém que tem um conhecimento,
um que ele nem sempre tem e acaba não
repassando as informações de uma maneira para ele ter um entendimento
melhor. Você dizer para um paciente analfabeto que ele tem diabetes e
ele nem vai saber o que é isso”, pontua a professora.
Atrelado a isso, ainda segundo a professora Magda de Almeida, está a
dificuldade de entendimento quanto aos próprios direitos como cidadão,
no que diz respeito à busca pelos serviços de saúde pública. 
“Existe também um contexto cultural em que essas pessoas procuram
mais setores informais de saúde e esses setores possuem uma outra lógica
de tratamento e alguns sinais de gravidade acabam não sendo
reconhecidos em um tempo mais oportuno”, pontua.
Vulnerabilidade social 
A falta ou a baixa escolaridade, na visão da mestre em Saúde da
Família pela UFC, Talita Carneiro de Carvalho, resulta num contexto de
vulnerabilidade social em que muitas pessoas, com baixo rendimento, não
têm acesso a saneamento básico, moradia de qualidade, alimentação
adequada, além de educação para os filhos. Para a especialista, são
aspectos diretamente ligados à promoção da saúde. 

Barreiras
Dessa forma, sobram barreiras sociais, organizacionais e de acesso
físico, principalmente quando se trata das zonas rurais. “Os serviços de
saúde estão para tratar as doenças, mas essas pessoas já têm esse
contexto que favorece o aparecimento delas. Eles não têm um contexto
promotor de saúde e, sim, um que destrói, e além do mais, não têm acesso
aos serviços de saúde quando estão doentes”, avalia.

(Diário do Nordeste)

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