Facção criminosa GDE está perto do fim, afirma delegado da PF

A organização criminosa cearense Guardiões do
Estado (GDE) teve as principais lideranças isoladas em presídios
federais e dezenas de outros membros presos, neste ano. Para o chefe da
Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal (PF),
delegado Samuel Elânio, a facção está perto do fim. Ontem, a GDE foi
alvo de uma nova operação policial, a ‘Reino de Aragão’.
Elânio revela que o grupo criminoso está sem chefia nas ruas. “Essa
substituição não está havendo. Algumas pessoas tentaram ocupar espaços,
mas sem muito êxito. Do meu ponto de vista, essa é uma organização que
tende a se acabar, senão já se acabou. Seja pela falta de estrutura
financeira, seja pela questão do próprio armamento. A gente chegou à
conclusão que, se existe armamento na mão dessa organização, é algo
muito ínfimo”, completa.
O coordenador do Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas
(Gaeco), do Ministério Público do Ceará (MPCE), promotor de Justiça
Rinaldo Janja, prega cautela sobre o fim dos Guardiões do Estado: “Essa
facção sofreu vários golpes, no ano passado e nesse ano. Mas os órgãos
de investigação e de repressão têm que ficar vigilantes, para que não
haja essa sucessão dentro da facção”.
A GDE nasceu no bairro Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, no ano de
2015, a partir de uma torcida organizada de futebol. Nos anos seguintes,
a facção travou uma guerra sangrenta com o Comando Vermelho (CV), em
todo o Estado, pelo domínio do tráfico de drogas, a ponto de o número de
homicídios ultrapassar 5 mil em 2017.
O início de 2018 foi marcado por matanças. Os Guardiões do Estado
foram apontados como autores da Chacina das Cajazeiras e da Chacina do
Benfica, que deixaram o total de 21 mortos na Capital. Mas no segundo
semestre daquele ano, o Estado começou a reduzir os índices de mortes
violentas – o que se repete até hoje.
A maior onda de ataques a instituições públicas e privadas, com mais
de 200 ocorrências, foi registrada em janeiro e fevereiro de 2019. GDE,
CV e Primeiro Comando da Capital (PCC) estavam por trás dos incêndios
criminosos. O Estado foi obrigado a combater, com mais ênfase, as
facções criminosas. E uma das medidas adotadas foi a transferência das
lideranças dos grupos criminosos para presídios federais de segurança
máxima.
Os seis principais líderes da GDE, segundo a Polícia, já estão
detidos em outros estados: Ednal Braz da Silva, o ‘Siciliano’; Francisco
de Assis Fernandes da Silva, o ‘Barrinha’ ou ‘Guardião’; Francisco
Tiago Alves do Nascimento, o ‘Magão’ ou ‘Juara’; Marcos André Silva
Ferreira, o ‘Branquinho’ ou ‘Dedé’; Yago Steferson Alves dos Santos, o
‘Supremo’ ou ‘Gordão’; Deijair de Souza Silva, o ‘Mestre’ ou ‘De Deus’.
Cada membro da alta cúpula era dono de um anel templário de ouro, com a
inscrição da abreviação do apelido, avaliado em R$ 7 mil.
Liderança
O principal alvo da Operação ‘Reino de Aragão’ era ‘Siciliano’, que
teve um mandado de prisão preventiva cumprido. A investigação descobriu
que ele – mesmo preso em Pernambuco – deu ordens em uma nova série de
ataques, ocorrida no Ceará, em setembro deste ano. Desta vez, a GDE foi a
única responsável por pelo menos 115 atos criminosos, de acordo com as
autoridades.
‘Siciliano’ foi localizado na Operação Torre, deflagrada também pela
PF e pelo Gaeco, em 26 de setembro último, para prender os responsáveis
por ataques a torres de transmissão de energia, em Fortaleza e
Maracanaú, em abril deste ano. A partir de decisão judicial, ele foi
transferido de um presídio estadual de Pernambuco para uma unidade
federal.
“Diante do trabalho realizado em setembro, nós chegamos a uma pessoa,
que estaria presa em Pernambuco. Com as informações que colhemos
durante as buscas e a própria prisão, identificamos que essa mesma
pessoa estava envolvida não só nos ataques em setembro, como em outras
ordens, inclusive colocando em risco a vida de pessoas do Poder do
Estado, autoridades, e planos de fuga do presídio”, afirma o delegado
federal Samuel Elânio.
Advogada
Um mandado de prisão preventiva também foi cumprido, ontem, contra a
advogada Elisângela Maria Mororó, que já estava detida em um presídio de
Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Ela foi presa no
Município de Catarina, no dia 13 de novembro último, por suspeita de
vender cocaína por R$ 15 mil, o quilo. Na residência onde a mulher
estava, que seria de propriedade de um líder da organização criminosa,
foram apreendidos uma pistola e 500g da droga.
Segundo Elânio, a atuação da advogada na GDE se dava “de diversas
formas”. “Levando e trazendo recado, trocando mensagens com aquele preso
em Pernambuco. Não seria uma mera integrante, ela participava
diretamente da situação. Não propriamente dos ataques (execução), mas
ela seria uma das mentoras de tudo que ocorreu no Estado neste ano, em
relação aos ataques das organizações criminosas”, explica.
Operação
A ‘Operação Reino de Aragão’ foi deflagrada pela PF e pelo Gaeco, com
apoio das polícias Civil e Militar, da Secretaria da Segurança Pública e
Defesa Social (SSPDS), da Secretaria da Administração Penitenciária
(SAP) e do Departamento Penitenciário Nacional (Depen).
O objetivo era o cumprimento de 31 mandados de prisão preventiva e 20
mandados de busca e apreensão, no Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio
Grande do Norte e Paraná, expedidos pela Vara de Delitos de Organizações
Criminosas da Justiça do Estado do Ceará. Cerca de 140 policiais (sendo
80 federais, 50 militares e 10 civis) participaram da Operação. Dez
mandados de prisão foram cumpridos, sendo seis contra alvos que já
estavam no cárcere e quatro contra pessoas soltas, até o fechamento
desta matéria.
Na ação, foram apreendidos computadores, aparelhos celulares, munições e pequena quantidade de cocaína.
No Ceará, os mandados foram cumpridos em Fortaleza, Maranguape e
Juazeiro do Norte. Mais especificamente na Capital, os alvos estavam
localizados tanto na periferia como na área nobre. Entre os bairros
visitados pelos policiais, estão Vicente Pinzón, Conjunto Palmeiras,
Lagamar, Autran Nunes e Meireles. Os investigados irão responder,
conforme a conduta, pelos crimes de dano, incêndio e organização
criminosa.
O nome da Operação faz referência ao principal alvo da investigação.
“Siciliano nos remete à Sicília, região da Itália. Há muito tempo, a
região da Sicília, junto com a região da Espanha, foi comandada pelo
imperador Aragão. E a região de Sicília, como outras regiões próximas,
ficou conhecida como ‘Reino de Aragão'”, esclarece o delegado federal
Samuel Elânio.
Integração
O chefe da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado (DRCOR),
delegado Paulo Henrique Oliveira, ressaltou o trabalho integrado dos
órgãos no enfrentamento às facções criminosas:
“A integração é fundamental para esse tipo de combate. A gente tem
feito e aperfeiçoado, cada vez mais, essa união de forças, para tentar
trazer um estado de paz para a comunidade cearense”.
O promotor Rinaldo Janja destacou também a importância da criação da
SAP e do trabalho realizado nos presídios do Ceará para frear as
facções: “Como é adotada a disciplina e a fiscalização pela Secretaria
da Administração Penitenciária, barrou a comunicação do presídio para a
rua”.

(Diário do Nordeste)

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