Total de 79 presos no Ceará está em presídios federais; maioria é chefe de facção

 
 
A ascensão do crime organizado nos últimos anos e a necessidade de
isolar os líderes das facções no Ceará elevou o número de presos
oriundos do estado em presídios federais espalhados pelo país para 79. A
informação foi obtida junto ao Departamento Penitenciário Nacional
(Depen), órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública
(MJSP), através da Lei de Acesso à Informação (LAI).
 
 
A maioria dos presos, 44, está na Penitenciária Federal em Campo Grande
(PFCG), no Mato Grosso do Sul. Outros 31 detentos estão na Unidade de
Catanduvas (PFCAT), no Paraná. Dois estão em Porto Velho (PFPV),
Roraima. Um em Brasília (PFBRA) e outro em Mossoró (PFMOS), no Rio
Grande do Norte.
 
 
O coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal (Caocrim), do
Ministério Público do Ceará (MPCE), promotor de Justiça André Clark, e a
presidente do Conselho Penitenciário do Ceará (Copen), advogada Ruth
Vieira, concordam que a maioria desses detentos são membros da alta
cúpula das facções criminosas que atuam no Ceará.
 
 
Clark comenta sobre os crimes cometidos pelos presos transferidos: “o
padrão seria o crime de integrar organização criminosa armada. Grande
parte também está envolvida com tráfico de drogas e homicídios. É alguém
com comportamento muito violento, com acesso a recursos tanto
financeiros quanto humanos, logísticos, veículos, armas. Pessoas que
integram um grupo criminoso em formato empresarial”.
 
 
Segundo Ruth Vieira, “a lei prevê que essa transferência se dê quando o
preso comete uma falta grave, por questão de indisciplina, está
conturbando a ordem na unidade prisional, ou então por envolvimento em
problemas internos e externos (ao presídio) de segurança”.
Operações sigilosas
 
 
As transferências para penitenciárias federais são tratadas como
sigilosas pelos órgãos de Justiça. Por segurança, informações como a
data da transferência, a localização e o prazo de permanência dos presos
fora do Estado são omitidas.
 
 
A Secretaria da Administração Penitenciária do Ceará (SAP) não quis
sequer comentar o assunto e alegou, em nota, que os questionamentos
feitos pelo G1 “têm relação direta com a estratégia do Estado no combate
ao crime organizado. Posto isso, a Secretaria da Administração
Penitenciária escolhe não fornece as informações para preservar o sigilo
e a eficácia das ações”.
Lideranças transferidas
 
 
As autoridades cearenses intensificaram a transferência de detentos para
penitenciárias federais no segundo semestre do ano passado, após a
guerra entre as facções fazer mais de 5 mil mortos no Ceará em 2017 e
resultar em cinco chacinas no primeiro semestre de 2018. Os principais
alvos foram os líderes de uma facção cearense, Deijair de Souza Silva, o
‘De Deus’, Auricélio Sousa Freitas, o ‘Celim da Babilônia’, e os irmãos
Noé de Paula Moreira, o ‘Gripe Suína’, e Misael de Paula Moreira, o
‘Afeganistão’, apontados pela Polícia como participantes da Chacina das
Cajazeiras, que deixou 14 mortos no Forró do Gago.
 
 
Neste ano, foram cambiados ao menos 47 presos para fora do Estado. A
motivação principal das transferências em massa foi a série de ataques
criminosos a instituições públicas e privadas no Estado, com mais de 200
ocorrências, ordenadas de dentro dos presídios, em janeiro último.
 
 
Um total de 15 chefes da mesma facção cearense envolvida na Chacina foi
transferida desta vez – entre eles Marcos da Silva Pereira, o
‘Marquinhos Chinês’, e Yago Steferson Alves dos Santos, o ‘Yago Gordão’.
E mais 21 membros da alta posição hierárquica de outra facção tiveram o
mesmo destino, inclusive Antônio Edinaldo Cardoso de Sousa, o
‘Naldinho’, e Francisco Jales Fernandes Fonseca, o ‘Zag’.
 
 
 
Por fim, 11 líderes de um terceiro grupo criminoso também foram enviados
a presídios federais, em maio último. Entre eles, Leandro de Sousa
Teixeira, chefe de uma filial da facção em Caucaia; e Marcílio Alves
Feitosa, o ‘Tranca’, considerado um traficante internacional de drogas.
Eles fazem parte de um grupo de 33 detentos que denunciou ter sofrido
tortura de agentes penitenciários no Ceará.
 
 
“A gente não pode dizer que eles foram transferidos por causa da
denúncia que fizeram. Fizemos uma inspeção no CDP, e a gente viu os
dedos feridos, calcificados, tortos. Não tem como eles produzirem essas
lesões em si mesmo”, afirma a presidente do Copen, Ruth Vieira.
A suspeita de tortura é investigada pelo Ministério Público. “Esse tipo
de caso tramita sob sigilo”, informou o coordenador do Caocrim, André
Clark. A SAP considera que a denúncia “resta completamente sem respaldo
de veracidade”.
G1 CE

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